domingo, 11 de outubro de 2015

EMRC e cursos vocacionais

É possível que os alunos dos cursos vocacionais frequentem a disciplina de EMRC. No entanto, atendendo ao caráter e organização específicos destes cursos entendemos oportuno enviar estas informações retiradas da portaria partilhada ontem, a fim de evitar atropelos e confusões.
Começamos por informar que antes de qualquer avanço é importante e necessário ler a legislação em causa.
Da nossa leitura salientamos que este diploma entra em vigor a 12 de outubro, amanhã, e que os projetos já em desenvolvimento só são abrangidos pelas normas desta portaria se a escola entender que os cursos podem beneficiar das alterações introduzidas (artigo 45º - Normas transitórias).
 
Salientamos também alguns pontos da mesma portaria que entendemos importante conhecer, nesta fase de implementação da disciplina nestes cursos. Se este ano não for possível avançar com a implementação desta portaria, pelo menos vamos preparando e refletindo sobre o que é necessário agilizar para o próximo ano letivo. 
 
1 - A estrutura curricular os cursos vocacionais é organizada em módulos, sendo por isso necessário adequar o currículo de EMRC para essa modalidade (baseando-se no programa da disciplina para o ensino básico ou secundário, respetivamente), de acordo com a duração do curso (1 ou 2 anos). O currículo/módulos deve ser adequado a estes cursos e decidido a nível de escola. Não há manuais, pelo que todos os recursos/materiais são elaborados pelo docente. Critérios de avaliação, módulos, etc podem carecer de aprovação pelo Conselho Pedagógico ou outros órgãos;
 
2- Parece-nos que não é possível juntar alunos do regime geral com alunos dos cursos vocacionais para formar turma, uma vez que o currículo de cada oferta formativa é distinto;
 
3 - Os alunos têm de assistir a 90% das aulas de cada módulo, para poder obter aprovação no mesmo;
 
4- Os professores têm de lecionar a totalidade de aulas previstas em cada módulo. No caso do docente faltar, mesmo justificadamente, tem de repor essas mesmas aulas;
 
5- A avaliação dos alunos incide sobre os conhecimentos e capacidades adquiridas;
 
6- A avaliação sumativa interna ocorre no final de cada módulo ou conjunto de módulos e é validada em conselho de turma, o qual o professor de EMRC integra;
 
7- A classificação da disciplina é expressa numa escala de 0 a 20 valores;
 
8- A publicação em pauta com a classificação de cada módulo só tem lugar quando o aluno atingir, nesse módulo, a classificação mínima de 10 valores;
 
9- A classificação final da disciplina corresponde à média das classificações dos módulos previstos, arredondada às unidades.

EMRC como disciplina facultativa nos cursos vocacionais do ensino básico e secundário!

EMRC como disciplina facultativa nos cursos vocacionais do ensino básico e secundário!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

UMA IMAGEM QUE PEREGRINA AO ENCONTRO DAS PESSOAS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES





A nossa Diocese de Portalegre-Castelo Branco recebe, neste mês de Outubro, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Sei que não é muito agradável para qualquer mãe (e irmãos) que seus filhos estejam ausentes nos momentos fortes da vida pessoal e familiar. Os pais sabem que é preciso celebrar estas e outras festas da vida para unir e ajudar a família a fazer da vida uma verdadeira festa, antecipação da FESTA eterna!
A minha ausência em Roma no Sínodo dos Bispos sobre a Família, não me permite a presença física. No entanto, agradecido e unido a todo o Presbitério diocesano, vivo na esperança de que a imagem da Senhora de Fátima ajudará a abrir o coração de todos os diocesanos para que recebam a Mãe de Deus e nossa Mãe no melhor cantinho do seu coração, pessoal e familiar. E, aí, Lhe prestem todas as atenções, com oração e ternura, com o encanto de filhos agradecidos e a decisão de trilhar o caminho que leva a Cristo. Que todos A recebam com tanto amor e ternura como quando Cristo, confiando plenamente em nós, no-l’A entregou com enorme delicadeza e carinho: “Filho, eis aí a tua Mãe”.
A visita da imagem peregrina será, também, momento oportuno para que toda a Diocese intensifique a oração, reze e acompanhe os trabalhos do Sínodo a decorrer em Roma, tendo presente a família, todas as famílias da nossa Diocese, sobretudo aquelas que, por causa da ausência de Deus na vida pessoal e familiar, sofrem a solidão e a instabilidade. Todas as famílias feridas pelas guerras, os exílios, a fome, a exclusão, as doenças, a separação, o divórcio, os maus tratos, o desemprego, a insegurança, a falta de habitação e de acesso à cultura e à saúde…
Neste olhar suplicante, não esqueçamos os avós que sofrem, silenciosa mas amargamente, a dor própria e a dos seus, a falência do casamento de seus filhos e netos e veem, por vezes, as crianças a serem abandonadas ou a serem objeto de disputa sem qualquer atenção à sua dor e tristeza. O Instrumento de Trabalho do Sínodo dos Bispos sublinha que a experiência do fracasso matrimonial é sempre uma derrota, não escolhida em plena liberdade, mas aceite com muito sofrimento. Uma situação dolorosa que não temos o direito de julgar, condenar ou apontar. Jesus, ao anunciar as exigências do Reino, olhou sempre com amor e ternura para todos. Acompanhou-os com solicitude de Bom Pastor, mas sem nunca prometer ou sequer insinuar o que não podia dar. Nunca fugiu à verdade das coisas e das situações, pois só a verdade transforma e eleva. O Papa Francisco, perante a diversidade de situações e sofrimento, aconselha-nos a ter “uma atitude sábia e diferenciada. Por vezes permanecendo ao lado e escutar em silêncio; outras vezes ir à frente indicar o caminho por onde prosseguir, outras vezes pôr-se atrás para apoiar e encorajar”, com respeito e humildade.
Sirvamos e rezemos por estas famílias e pessoas feridas e sofredoras. Peçamos pelos jovens para que se envolvam verdadeiramente numa séria preparação para o seu matrimónio. Demos graças ao Senhor pela generosa fidelidade com que tantas e tantas outras respondem, com alegria e fé, à sua vocação e missão, mesmo no meio das dificuldades e vergastadas da vida. Estas entenderam que “a fé faz descobrir a vocação ao amor e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade a Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade”(LF 53).
Que Nossa Senhora de Fátima nos toque o coração, nos dê a graça da conversão constante e nos ajude a entender cada vez mais “a beleza, a função e a dignidade da família” e a termos uma pastoral familiar mais ousada e inovadora “que evidencie sempre o valor do encontro pessoal com Cristo, permita realçar a centralidade do casal e da família no projeto de Deus e leve a reconhecer como Deus entra no concreto da vida familiar, tornando-a mais bela e vital” (IL).

Antonino Dias, Bispo Diocesano

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Promoção da Nova Evangelização, com a proximidade do Jubileu Extraordinário da Misericórdia


A proximidade do Jubileu Extraordinário da Misericórdia permite-me focar alguns pontos sobre os quais considero importante intervir para consentir que a celebração do Ano Santo seja para todos os crentes um verdadeiro momento de encontro com a misericórdia de Deus. Com efeito, desejo que o Jubileu seja uma experiência viva da proximidade do Pai, como se quiséssemos sentir pessoalmente a sua ternura, para que a fé de cada crente se revigore e assim o testemunho se torne cada vez mais eficaz.
O meu pensamento dirige-se, em primeiro lugar, a todos os fiéis que em cada Diocese, ou como peregrinos em Roma, viverem a graça do Jubileu. Espero que a indulgência jubilar chegue a cada um como uma experiência genuína da misericórdia de Deus, a qual vai ao encontro de todos com o rosto do Pai que acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido. Para viver e obter a indulgência os fiéis são chamados a realizar uma breve peregrinação rumo à Porta Santa, aberta em cada Catedral ou nas igrejas estabelecidas pelo Bispo diocesano, e nas quatro Basílicas Papais em Roma, como sinal do profundo desejo de verdadeira conversão. Estabeleço igualmente que se possa obter a indulgência nos Santuários onde se abrir a Porta da Misericórdia e nas igrejas que tradicionalmente são identificadas como Jubilares. É importante que este momento esteja unido, em primeiro lugar, ao Sacramento da Reconciliação e à celebração da santa Eucaristia com uma reflexão sobre a misericórdia. Será necessário acompanhar estas celebrações com a profissão de fé e com a oração por mim e pelas intenções que trago no coração para o bem da Igreja e do mundo inteiro.
Penso também em quantos, por diversos motivos, estiverem impossibilitados de ir até à Porta Santa, sobretudo os doentes e as pessoas idosas e sós, que muitas vezes se encontram em condições de não poder sair de casa. Para eles será de grande ajuda viver a enfermidade e o sofrimento como experiência de proximidade ao Senhor que no mistério da sua paixão, morte e ressurreição indica a via mestra para dar sentido à dor e à solidão. Viver com fé e esperança jubilosa este momento de provação, recebendo a comunhão ou participando na santa Missa e na oração comunitária, inclusive através dos vários meios de comunicação, será para eles o modo de obter a indulgência jubilar. O meu pensamento dirige-se também aos encarcerados, que experimentam a limitação da sua liberdade. O Jubileu constituiu sempre a oportunidade de uma grande amnistia, destinada a envolver muitas pessoas que, mesmo merecedoras de punição, todavia tomaram consciência da injustiça perpetrada e desejam sinceramente inserir-se de novo na sociedade, oferecendo o seu contributo honesto. A todos eles chegue concretamente a misericórdia do Pai que quer estar próximo de quem mais necessita do seu perdão. Nas capelas dos cárceres poderão obter a indulgência, e todas as vezes que passarem pela porta da sua cela, dirigindo o pensamento e a oração ao Pai, que este gesto signifique para eles a passagem pela Porta Santa, porque a misericórdia de Deus, capaz de mudar os corações, consegue também transformar as grades em experiência de liberdade.
Eu pedi que a Igreja redescubra neste tempo jubilar a riqueza contida nas obras de misericórdia corporais e espirituais. De facto, a experiência da misericórdia torna-se visível no testemunho de sinais concretos como o próprio Jesus nos ensinou. Todas as vezes que um fiel viver uma ou mais destas obras pessoalmente obterá sem dúvida a indulgência jubilar. Daqui o compromisso a viver de misericórdia para alcançar a graça do perdão completo e exaustivo pela força do amor do Pai que não exclui ninguém. Portanto, tratar-se-á de uma indulgência jubilar plena, fruto do próprio evento que é celebrado e vivido com fé, esperança e caridade.
Enfim, a indulgência jubilar pode ser obtida também para quantos faleceram. A eles estamos unidos pelo testemunho de fé e caridade que nos deixaram. Assim como os recordamos na celebração eucarística, também podemos, no grande mistério da comunhão dos Santos, rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de qualquer resíduo de culpa e possa abraçá-los na beatitude sem fim.
Um dos graves problemas do nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida. Uma mentalidade muito difundida já fez perder a necessária sensibilidade pessoal e social pelo acolhimento de uma nova vida. O drama do aborto é vivido por alguns com uma consciência superficial, quase sem se dar conta do gravíssimo mal que um gesto semelhante comporta. Muitos outros, ao contrário, mesmo vivendo este momento como uma derrota, julgam que não têm outro caminho a percorrer. Penso, de maneira particular, em todas as mulheres que recorreram ao aborto. Conheço bem os condicionamentos que as levaram a tomar esta decisão. Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por esta escolha sofrida e dolorosa. O que aconteceu é profundamente injusto; contudo, só a sua verdadeira compreensão pode impedir que se perca a esperança. O perdão de Deus não pode ser negado a quem quer que esteja arrependido, sobretudo quando com coração sincero se aproxima do Sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai. Também por este motivo, não obstante qualquer disposição em contrário, decidi conceder a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja perdoado. Os sacerdotes se preparem para esta grande tarefa sabendo conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido, e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a sua presença.
Uma última consideração é dirigida aos fiéis que por diversos motivos sentem o desejo de frequentar as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade São Pio X. Este Ano Jubilar da Misericórdia não exclui ninguém. De diversas partes, alguns irmãos Bispos referiram-me acerca da sua boa fé e prática sacramental, porém unida à dificuldade de viver uma condição pastoralmente árdua. Confio que no futuro próximo se possam encontrar soluções para recuperar a plena comunhão com os sacerdotes e os superiores da Fraternidade. Entretanto, movido pela exigência de corresponder ao bem destes fiéis, estabeleço por minha própria vontade que quantos, durante o Ano Santo da Misericórdia, se aproximarem para celebrar o Sacramento da Reconciliação junto dos sacerdotes da Fraternidade São Pio X, recebam validamente e licitamente a absolvição dos seus pecados.
Confiando na intercessão da Mãe da Misericórdia, recomendo à sua protecção a preparação deste Jubileu Extraordinário.
Vaticano, 1 de Setembro de 2015
FRANCISCUS

quinta-feira, 18 de junho de 2015

PAPA PUBLICA ENCÍCLICA “LAUDATO SI” SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM





“Laudato si” (louvado sejas) é o nome da encíclica que o Papa Francisco acaba de publicar nesta quinta feira, 18 de junho, sobre o cuidado da casa comum, a ecologia.
Partindo da interrogação sobre o que está a acontecer ao mundo em que vivemos, o Papa Francisco desenvolve a sua reflexão a partir de algumas linhas de força: «a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descartável e a proposta dum novo estilo de vida » (nº 16).
A ecologia ambiental (cuidado da natureza) e a ecologia humana (cuidado das acções e relações) implicam-se, por isso, mutuamente. O Papa pede, pois, que haja uma real mudança de estilos de vida (nº 203) e que se ultrapasse a cultura que desvaloriza a condição humana e que desvaloriza e destrói os recursos naturais. «Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo» (nº 230). A Encíclica “Laudato si” desenvolve-se em seis grandes capítulos: I - O que está a acontecer à nossa casa; II – O Evangelho da Criação; III – A raiz humana da crise ecológica; IV – Uma ecologia integral; V – Algumas linhas de orientação e acção; VI – Educação e espiritualidade ecológicas.
No entender do Papa Francisco, toda a ecologia reintegra o homem na natureza, reintegra no mundo, no seu ecossistema. E toda a ecologia lhe pede responsabilidade para que o mesmo mundo seja sempre habitável em recursos e relações. A existência humana, de facto, baseia-se em três grandes relações fundamentais e estreitamente interligadas: com Deus, com o próximo, com o mundo (a Terra).
É a própria preocupação ecológica que acaba por dar origem a uma série de estudos e análises quantitativas que conduzem à consciência da limitação e finitude dos recursos naturais do ecossistema e da implicação humana em todo o processo. O esgotamento dos recursos naturais, a energia, as matérias primas, a água, tudo implica um novo modo de relacionamento com a natureza que é também uma nova concepção do próprio homem. Para que a vida humana sobre a Terra seja possível e tenha futuro, é preciso ter em conta o carácter finito de muitos recursos e distinguir as energias renováveis das não renováveis. O homem é chamado a tomar consciência da finitude do mundo. Renunciar a investir nas pessoas é autêntico suicídio. E, por isso, toda a lesão da solidariedade e da amizade cívicas provocam danos ambientais (nº142).
A perspectiva da natureza e da condição humana como património valioso ultrapassa assim, em absoluto, a concepção puramente funcional da natureza. Não sendo descartável, o Homem é o valor central. Não mero usufrutuário mas também cuidador. Significa que a situação actual tem necessárias implicações éticas e comportamentais.
Talvez como nunca, a humanidade tenha hoje “capacidade” para uma auto-destruição total. Mas, também talvez como nunca, tenha também em mãos a possibilidade da opção pela preservação do mundo e da humanidade bem como o seu próprio desenvolvimento com qualidade. É a corrupção de consciências e de instituições que teima em esconder o verdadeiro impacto ambiental de alguns projectos humanos em troca de lucros parciais e favores ocasionais imediatos (Cf. Nº 182). Os problemas ecológicos assumem, então, formas que são verdadeiras ameaças à vida humana.
O factor responsabilidade vem, pois, interrogar os indivíduos e as instituições sobre a necessidade de acções e comportamentos que sejam compatíveis com a vida autenticamente humana. A ecologia pede que se ultrapasse a cultura do “descartável” do humano e dos recursos. E pede uma ética da responsabilidade. O Papa di-lo claramente. São necessárias opções corajosas (ao nível individual e das instituições) para não destruir aquilo que é o grande dom de Deus e a casa comum da humanidade. Não é, pois, novidade que a Igreja, e particularmente o Papa Francisco, se preocupem com a ecologia e a promovam como experiência, contexto e horizonte da existência humana e da reflexão sobre o seu valor inviolável.
Num momento em que se prepara a cimeira de Paris na qual se debaterão temas atinentes ao novo acordo global sobre o clima centrado na redução de emissões para limitar o aumento médio de temperatura em 2 graus, e num tempo em que a experiências de férias convida muitos à contemplação da natureza, fica o convite à leitura integral do texto do Papa Francisco.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Ecologia e Religião



1. Era Fernando Pessoa que perguntava: O mistério? E respondia: Olha para o lado e ele está lá. Sim, digo eu, está lá, ao lado, fora, dentro, em toda a parte. Ele mora, antes de mais, nesta pergunta infinita, inconstruível: porque há algo e não nada?
Há 13 700 milhões de anos foi o Big Bang. A Terra pode ter aparecido há uns 5000 milhões de anos e a vida há uns 3500 milhões. Há uns 7 milhões de anos, deu-se a separação do tronco comum, que se ramificou, de tal modo que temos, de um lado, os chimpanzés, gorilas... e, do outro, num processo que passa pelo Homo habilis e o sapiens, estamos nós, o Homo sapiens sapiens - acrescento sempre: e demens demens (sapiente sapiente e demente demente) -, há uns 150 mil anos.
Eu considero espantoso este processo gigantesco, que dá que pensar. E o mistério mora também aqui: porque é que apareceu, no termo dele, embora ainda a caminho, um ser que é o ser humano, sendo nele que o processo toma consciência de si, pois antes não sabia de si. E bastava a mínima variação nas leis iniciais, para não estarmos aqui a falar disto, deslumbrando-nos e pondo questões, como: há um desígnio?, como é que um processo impessoal produz uma realidade que se vive a si mesma como pessoa e como "eu", na primeira pessoa, e que fala e que é livre, e que distingue entre o bem e o mal e contempla e cria beleza, e pergunta com perguntas incessantes, até à pergunta ao infinito e pelo infinito? E porque é que, neste processo gigantesco, apareci eu, precisamente eu, único e irrepetível?
O facto é que nascemos nele, vimos da natureza, mas de tal maneira que somos natureza, dentro dela, mas ao mesmo tempo transcendendo-a: somos "da" natureza e "fora da" natureza, pois reflectimos sobre ela e é em nós e por nós que ela sabe de si. E vivemos dela e somos responsáveis por nós e por ela.
2. Mostrei aqui, na semana passada, citando cientistas eminentes, que, face à iminência da catástrofe - por exemplo, está aí o aquecimento global -, se impõe uma mudança de paradigma, para ser possível a continuidade da vida, pensando concretamente nos países mais pobres e nas gerações futuras, pois, na lógica actual, a Terra, que já viveu sem nós, pode pura e simplesmente expulsar-nos dela.
Numa obra importante, já aqui citada, Sustentabilidade, Leonardo Boff apela para a urgência de um desenvolvimento sustentável, para que "o capital natural seja mantido e enriquecido na sua capacidade de regeneração, reprodução e coevolução". Foi com o paradigma moderno, reclamando para a subjectividade e a tecnociência a omnipotência divina de dominação universal, que a natureza deixou de ser mãe acolhedora para tornar-se puro reservatório de energias a explorar sem limites. Tomamos cada vez mais consciência da urgência da mudança. Segundo Boff, há pontos fundamentais a considerar e a salvaguardar. 1. Reconhecer que a Terra é Mãe, como declarou oficialmente a ONU em 2009, e que a Terra é um superorganismo vivo, Gaia. 2. Resgatar "o princípio da re-ligação": todos os seres, particularmente os seres vivos, são interdependentes. A Terra é um sistema - num sistema, o todo é mais do que a soma das partes. Todos os seres são constituídos pelos mesmos elementos físicos e químicos, derivando daqui a consciência de que "temos todos um destino partilhado". 3. Entender que "a sustentabilidade global só estará garantida mediante o respeito dos ciclos naturais", o que implica um consumo racional dos recursos não renováveis e dar tempo à natureza para regenerar os renováveis, pensando na solidariedade intra e intergeracional. 4. Valorizar e preservar a biodiversidade, "que é a que garante a vida como um todo". 5. Exigir que "a ciência se faça com consciência e se submeta a critérios éticos, para que as suas conquistas beneficiem mais a vida e a humanidade do que o lucro e os mercados". 6. A tecnociência não é a via única de acesso válido à realidade. É preciso preservar valores como os direitos dos afectos e da razão sensível e cordial e das utopias e da colaboração e do respeito pela humanidade toda. 7. Colocar no centro o bem comum e a equidade, porque as conquistas humanas devem beneficiar a todos. 8. É urgente uma eco-educação, educação para a ecologia, preservação do meio ambiente, enquadrada por uma consciência planetária: "vida, humanidade, Terra e universo formamos uma única, grande e complexa realidade". Afinal, como advertiu Dostoievski, "o progresso todo não é nada comparado com o choro de uma criança".
3. "Dominai a Terra", disse Deus aos primeiros homens, segundo o Génesis. Há quem acuse essa ordem divina da presente situação. Má interpretação, pois o que Deus mandou foi cuidar da Terra como quem cuida de um jardim. E aí está outra razão para o Papa Francisco publicar em breve uma encíclica sobre a preservação do meio ambiente: é preciso cuidar da natureza, porque é criação, dom e presente de Deus.
Anselmo Borges